Enviei no passado dia 28 de Janeiro, através dos CTT, um par de sapatos cujo receptor era o nosso Primeiro Ministro, e outro par destinado à nossa mui excelsa e iluminada Ministra da Educação. A acompanhar este calçado seguiam em paralelo duas cartas onde tecia considerações e argumentos que exprimiam o meu mais absoluto desacordo com as políticas gerais deste governo e as políticas sectoriais deste Ministério da Educação. O envio dos meus sapatos usados era em si mesmo um acto de protesto, que se tornava mais explícito através do conteúdo das cartas.
Pensei que tais sapatos iriam permanecer com os seus novos donos, tendo como destino mais provável um qualquer recipiente de lixo.
Apesar da crise financeira e económica mundial nunca pensei que os destinatários dos meus sapatos se socorreriam deles para dar-lhes o uso corrente que é suposto dar a uns sapatos que ainda têm meias solas para gastar.
As minhas convicções não se confirmaram visto que o Primeiro Ministro não me devolveu os meus sapatos. Pairará para sempre a dúvida se em alguma ocasião especial ou informal o Eng. José Sócrates fará uso daqueles que já foram os meus sapatos.
A Ministra da Educação procedeu de maneira diversa, devolvendo os meus sapatos. Nunca saberemos ao certo, a menos que a própria explicite, se o motivo da devolução do dito calçado se terá devido: ao seu descontentamento face à forma de protesto ou, quiçá, o formato dos sapatos não lhe tenha agradado ou, por ventura, os terá repudiado porque os mesmos não correspondiam e não se coadunavam com o seu género (masculino/feminino). Esse mistério um dia será desvendado quando se publiquem as memórias dos protagonistas destinatários do envio dos sapatos.



