Este estar “cativo” do governo não tem qualquer relação com o sublime poema de Camões “Cativa”. Não se trata, pois, como no poema, de estar apaixonado ou cativado por este governo que está refém (cativo) do poder económico. Trata-se antes de me encontrar aprisionado num inferno de “cativações”. Todos os ministérios deste governo têm um orçamento para o seu funcionamento, mas grande parte dele está “cativado”, ou seja, não se pode utilizar. Há uma proibição legal para usar essa verba cativada. Imaginem uma pessoa que possui uma soma muito significativa de dinheiro que se poderia, por tal razão, considerar rica mas que por uma ordem judicial ou outra situação qualquer similar não pode usufruir desse dinheiro. Virtualmente é um individuo rico na prática não passa dum pobre. Eis o paradoxo. É neste sentido que estou cativado por este governo. Em teoria deveria estar dois escalões acima na minha carreira de professor, na pratica cativaram-me esse tempo de serviço. Esta poderia ser uma efémera cativação se agora me repusessem no lugar onde deveria estar. A pretensão do governo é cativar para toda a eternidade esse tempo. Para onde irá esse tempo, esse trabalho transformado em dinheiro? Para o mesmo lugar para onde vão todas as cativações feitas aos trabalhadores e ao povo. Para o poder económico de quem também está cativo (prisioneiro) este governo. A corrente de sujeição começa no elo mais pequeno e frágil da cadeia. Eu estou cativo de um governo que, por sua vez, está cativo de poderosos lóbis económicos que também estão cativos às estratégias de máximo lucro através da exploração laboral. Ia dizer: é estranho que isto aconteça!… mas tenho que retificar: é a natureza das coisas que assim acorra! Que posso fazer? Protestar em todos os lugares e fóruns onde o possa fazer para alertar a população em geral desta injustiça. O problema é que a própria população pode já estar cativa da propaganda e da manipulação dos grandes lóbis. Sendo assim a própria sociedade manipulada será aliada desta estratégia de cativação do poder económico em conluio com o poder governativo na era da pós-verdade.
Estou cativo. E não estou cativo de amor. Antes fosse! Sou um cativo económico a quem cativaram (retiraram) os seus direitos. Enquanto não me cativarem também a voz continuarei a protestar.