



Depois de ler uma notícia num diário de referência sobre o pagamento de mais de trinta e cinco mil euros que fora efectuado pelo Ministério de Educação a favor de um grupo empresarial proprietário de jornais pela publicidade governativa absolutamente despudorada travestida de pseudo-notícias (sem nenhuma assinatura), decidi que tinha o mesmo direito deste Governo e deste Ministerio da Educação e comecei a utilizar os classificados do Diário de Aveiro. Paguei um pequeno anúncio que seria públicado durante doze dias consecutivos nos quais se podia ler: “Professor desesperado! Não tenho tempo para ensinar os vossos filhos!!!”
Havia, no entanto, duas diferenças substanciais entre o que o Ministério fazia e o que eu pretendia levar a cabo: primeiro, eu assumia que aquelas eram mensagens publicitárias, sem qualquer disfarce, segundo, o Ministério pagava aquela publicidade com dinheiro de todos os contribuintes enquanto eu pagava os anúncios única e exclusivamente com os meus escassos recursos financeiros.
Posteriormente pensei que o impacto seria maior utilizando jornais nacionais. Efectivamente a eficácia era superior, mas o custo também aumentava de forma desmedida. Ainda assim suportei essa despesa e mandei publicar anúncios com conteúdo idêntico ao anteriormente descrito durante os domingos do mês de Outubro de 2008 no Público e no Jornal de Notícias. O tamanho dos anúncios de semana para semana foi duplicando e o custo também. A ideia era conseguir ao cabo de várias semanas um anúncio de página inteira. Fiz uma prospecção de mercado e numa revista semanal a tal página custava 7000 €, nos jornais. Sonhei, mas para as minhas posses eram valores incomportáveis.Talvez entre muitos professores conseguissemos. Comuniquei a ideia aos docentes da minha escola e angariámos 125 €, valor manifestamente pequeno para alcançar o objectivo proposto. Na segunda semana de Novembro deixei cair esta forma de protesto, que, apesar disso, teve repercussões. Destaco três: 1)Um parlamentar socialista, cujo nome por razões óbvias omito, escreveu-me um mail que dizia textualmente: Acabo de ler um dos seus anúncios, (…) conheço bem esse grito de alma. Constato que há uma unanimidade quanto ao estado de espírito que nos transmite. Tudo isto é, no mínimo, muito preocupante, mas o Ministério está incapaz de ouvir e reconhecer o disparate.Por mim já dei o possível contributo, mas há uma barreira intransponível.
2) Um jornalista do Jornal de Notícias interessou-se por este facto e escreveu uma reportagem intitulada: “Docente anuncia desespero no jornal”, que foi publicada no dia 22 de Outubro de 2008. A propósito desta notícia e reagindo a ela o Ministério da Educação ou alguém no seu lugar colocava uma pequena nota de “esclarecimento” (pervertendo e deturpando como era e continua a ser prática habitual) com o seguinte título: “Professor protesta mas não dá aulas”
Ainda ensaiei e escrevi uma resposta, mas acabei por desistir.
3) A TVI também se interessou pela notícia dos anúncios no jornal. Convidaram-me para ir falar sobre educação (o mote eram os tais anúncios classificados ) a um programa de entretenimento designado por Você na TV! Depois de muitas hesitações aceitei e qual não foi a minha surpresa quando vi o painel de convidados: o Sr. Albino Almeida, máximo dirigente dos Pais e Encarregados de Educação da CONFAP e o próprio secretáro de estado da Educação, o Sr. Valter Lemos. Depois de uma discussão que se transformou num monólogo do poder, percebi que em televisão não se pode ser educado porque se o fores não falas. Eu fui extremamente educado! Esta experiência televisiva serviu para confirmar a má vontade e a má fé que existe contra os docentes por parte dos principais protagonistas do sector educativo.
Dali saí com a convicção reforçada que a luta dos professores era mais que justa, era absolutamente necessária e que aqueles protagonistas estavam para destruir a escola que existia e não para construir uma melhor
Triste e crua realidade!!!
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