Este filósofo de origem basca representa um dos grandes vultos da intelectualidade espanhola de sempre, e foi, talvez, o autor do país vizinho que mais amou Portugal. Este amor não foi apenas uma paixão pelo outro, sem fundamento, mas antes, um amor baseado num profundo conhecimento da cultura e da realidade portuguesa. Atente-se ao facto de Unamuno visitar com uma enorme regularidade o nosso país. Entre 1894 e 1935 este filósofo esteve em Portugal pelo menos dezasseis vezes, facto que está devidamente documentado. Teve um contacto directo e epistolar assíduo com os mais altos representantes da cultura e literatura do nosso país, nomeadamente, Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Manuel Laranjeira.
Amou tanto o nosso país que pretendeu retratá-lo num livro que projectava escrever e que iria intitular Almas y cosas de Portugal. Infelizmente, Unamuno nunca chegou a concretizar este tão ansiado desejo devido à falta de tempo. Apesar disso legou-nos uma pequena obra à qual deu o título Por tierras de Portugal y España, que foi publicada em 1911, e que é constituída por uma recompilação de artigos para um jornal de Buenos Aires denominado La Nación.
Numa carta datada de 19 de Dezembro de 1905 destinada a Teixeira de Pascoaes, escreve o seguinte: “Estoy recogiendo materiales para escribir un trabajo que se llamará: Portugal. Sus libros de usted me son útiles al efecto. Me interesa sobre todo el tédio portugués, el pesimismo patriótico todo lo que hay debajo de aquel terrible verso de Nobre
“Amigos
Que desgraça nacer em Portugal!”[1]
Repare-se como já em 1905 Unamuno tinha o plano de dedicar um livro a Portugal, interessando-lhe particularmente o tédio e o pessimismo português. Uns anos mais tarde, a 1 de Janeiro de 1908, na continuação da preparação do seu livro, deixará escrito numa carta dirigida ao autor da Arte de ser português: “Ahora me interesa el fenómeno de la frecuencia con que se dan suicidios en Portugal, tierra trágica.”[2]
Curiosamente, do seu livro Por tierras de Portugal e España constará um capítulo intitulado “Portugal una tierra de suicidas”. Sente-se, assim, o enorme fascínio e amor que Unamuno experimenta pelo nosso país. Em todos os seus escritos fará apologia deste amor como caminho seguro para um melhor e mais profundo conhecimento entre as duas nações vizinhas: “Es una obra de amor y de cultura hacer que Portugal y España se conozcan mutuamente. Porque conocerse es amarse. El conocimiento engendra amor y el amor conocimiento. Son en el fondo una sola y misma cosa vista por fuera o por dentro.”[3] E, posteriormente, numa outra epístola, complementará este axioma com uma ideia ainda mais forte e que parece ser o corolário do seu pensamento: “Sin conocer a Portugal no se conoce España; por el contraste y por lo otro.”[4]
Para Unamuno, Portugal é “ese gran pequeño pueblo que tanto me dió que sentir, que pensar y que soñar”[5]. Assim, confessa mais uma vez o seu encantamento por esta terra e pelas suas gentes, tentando compreender e explicar a peculiar tristeza dos homens e mulheres que habitam este rectângulo junto ao mar. E é precisamente o mar, que segundo Unamuno, foi a “gloria de Portugal, el mar, que le ha dado eternidad en la história humana”[6], mas também é a causa essencial dessa tristeza intrínseca da alma portuguesa: “el mar le ha metido no gosto da cobiça e na rudeza/ d`huma austera apagada e vil tristeza”[7]. O mar que nos deu glória e fama eterna, também produz em nós essa perene tristeza em forma de saudade que só nós portugueses sentimos.
Unamuno encontra na análise da história e na língua grandes afinidades que dão força à ideia da “hispanidade”. Para ele, Portugal e Espanha percorreram caminhos históricos paralelos e as duas línguas, espanhol e português, não têm necessidade de tradução recíproca, pois são perfeitamente inteligíveis para qualquer das partes.
A ideia de Unamuno é contrária a qualquer fragmentação da península ibérica. Diz ele, numa entrevista concedida a António Ferro: “Discordo das aspirações separatistas de Catalunha, das próprias Vascongadas, minha terra. Um sonho de poetas, de intelectuais… Se se perguntar a um camponês, a um comerciante catalão, a um homem do povo, se quer a independência de Catalunha, verá o que lhe respondem… É a alfândega, são os direitos, é a vida que se limita, são as portas que se fecham…”[8]. Em relação a Portugal diz, mais adiante, que os portugueses “têm o direito de se governar, de saber o que lhes convem”[9]. Unamuno pensa que “vale mais escrever, numa só língua, em benefício da própria cultura, do que ficar encerrado numa língua inacessível, pouco divulgada”[10].
Todas as outras línguas peninsulares deviam diluir-se em favor do castelhano que é, segundo Unamuno, a língua mais universal, por ser a que teve mais sucesso a nível peninsular e da América latina. Em relação a esta polémica ideia é surpreendente ver o que ele diz em relação ao basco, a língua da sua terra natal: “Enterrémosle santamente, con dignos funerales, embalsamado en ciência, leguemos a los estudios tan interesante relíquia”[11].
É curioso notar como a língua e as línguas faladas na Península se tornam tão importantes para o conceito de “hispanidade” de Unamuno. Este ideal que é a trans-Espanha formar-se-á à custa das pequenas línguas e nacionalidades que formatarão a Confederação Hispânica.
Unamuno defende, tal como o definiu Angel Marcos de Dios, um “iberismo espiritual”[12]. E como se poderia estabelecer essa união moral, espiritual ibérica? Para Unamuno, isto apenas se pode alcançar através “do regime da vontade nacional, de soberania popular”[13]. Por outras palavras, a unidade para Unamuno é boa, mas nunca através da força, porque deixaria de ser unidade.
O projecto defendido por Unamuno é claramente utópico, mas foi essa a fórmula que lhe pareceu ser a promessa de um futuro harmonioso para a comunidade de países hispânicos. “É ainda ucrónico – nenhum tempo foi, até Unamuno, o tempo da «hispanidade» – polémico – como verificamos, as pequenas nacionalidades têm de sacrificar-se às grandes nacionalidades.”[14]
Encontramos nestes pensamentos uma acentuada semelhança com Antero de Quental, que defendeu o sacrifício da nacionalidade portuguesa em prol da grande federação ibérica.
[1] Bento, José (1986). Epistolário Ibérico: cartas de Unamuno e Pascoes, Lisboa: Assírio & Alvim, p.65
[2] idem, p. 70
[3] Bento, José (1986). Epistolário Ibérico: cartas de Unamuno e Pascoes, Lisboa: Assírio & Alvim, p.69
[4] ibidem
[5] Unamuno, Miguel (1966) “Lisboa y Toledo”, s.d., OC, I, Madrid: Escelicer S.A., p.717
[6] Unamuno, Miguel (1989) Por terras de Portugal e de Espanha, Lisboa: Assírio & Alvim, p.36
[7] ibidem
[8] António Ferro, “A Espanha vista em Espanha. António Ferro vai a Salamanca e entrevista D. Miguel Unamuno”, Diário de Notícias, Lisboa, Ano LXVI, nº 23.026, 9.III.1930, p.1
[9] António Ferro, “A Espanha vista em Espanha. António Ferro vai a Salamanca e entrevista D. Miguel Unamuno”, Diário de Notícias, Lisboa, Ano LXVI, nº 23.026, 9.III.1930, p.1
[11] Unamuno, Miguel (1966) “Discurso en los Juegos Florales celebrados en Bilbao el dia 26 de Agosto de 1901”, OC, IV, Madrid: Escelicer,S.A., p.243
[12] Dios, Angel Marcos de (1985). Escritos de Unamuno sobre Portugal, Paris: Fundação Caloust Gulbenkian Centro Cultural Portugues, p.28 e sgs.
[13]Unamuno, Miguel (1977). Cronica Política Española (1915-1925) Edicion de Vicente Gonzales Martin, Salamanca: Ediciones Almar, pp. 154-155.
[14] Dias, J.M.Barros (2001) A posição de Portugal na «Hispanidade» Unamuniana, Cultura – Revista de História e Teoria das Ideias, Vol. XII, IIª Série, p.106
P.S.: Estive a ler um bocado da minha dissertação de mestrado e vislumbrei nele tanta atualidade que decidi partilhar…
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