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:) Teatro (:

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Hoje celebra-se o dia mundial do teatro. Este é um grande dia, e eu particularmente estou muito agradecido a esta arte milenar por me ter salvo tantas vezes.  Salvou-me da minha timidez, das minhas inseguranças, das minhas tristezas…

Quando tudo se desmorona dentro de mim, quando nada parece fazer sentido, lá está o teatro: a minha tábua de salvação. De facto, acho que seria muito feliz se vivesse em permanência encima das tabuas dum palco. A vida real é uma tragicomédia povoada de dramas, desilusões, incompreensões e, por vezes, condimentada com pequenos momentos fugidios de humor e felicidade.

A minha pele e o meu corpo têm habitado outras peles e outros corpos. Tenho sentido dentro das minhas entranhas as angustias, as dúvidas, as dores e os pesares de outras vidas, de outras personagens.

O Sr Glas da “Última dança no local do crime” conviveu comigo durante cinco meses e o drama da vida dele passou a ser o meu drama e, quando contava em palco, que tinha perdido a minha mulher judia e o meu filho judeu num campo de concentração, as lágrimas caiam-me copiosamente. Aquelas lágrimas não eram produto dum artifício provocado, fingido. Aquelas lágrimas eram a dor incontida do Sr. Glas que se tinha transformado na minha dor. Eram genuínas lágrimas minhas.

O Harpagão do “Avarento” de Molière também me habitou durante alguns meses. Eu comecei por conhecer esta personagem trágica de forma completamente acidental. Esse papel inicialmente estava destinado a ser interpretado por outro ator. Surgiu um problema imprevisto com esse ator e eu tive de substituí-lo.

Era uma personagem obcecada por dinheiro. Comecei a compreender aquele ser mesquinho através da intuição e pouco a pouco transformei-me no Harpagão, aprendi a caminhar como ele de forma ridícula, a pensar como ele.  As situações vividas por aquele homem horroroso eram de uma comicidade extraordinária em palco. Fui muito feliz vivendo as misérias e as desgraças do Harpagão.

O palco é sempre uma bênção para todos aqueles que o pisam e para todos aqueles que assistem aos dramas e alegrias que tecem e destecem os enredos que são a própria vida.

Viva o teatro que nos salva todos os dias!

Sr. Glas

Harpagão

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