A morte de Adolfo Suárez trouxe-me de volta recordações e lembranças. Fez-me viajar ao tempo em que eu era um estudante em Barcelona, ingénuo e cheio de sonhos. Vivi aquela época em que este homem conseguiu fazer a proeza incrível de uma transição pacífica da Espanha franquista para a Espanha democrática.
Foi durante o seu governo que nasceu a Constituição Espanhola que ainda se encontra em vigor e que estabeleceu a organização territorial baseada na autonomia dos municípios, províncias e Comunidades Autônomas.
A inteligência, a integridade e a coragem de Adolfo Suárez abriu o futuro ao nosso país vizinho. Um futuro de modernidade e pluralismo democrático.
Lembro-me de um episódio onde a coragem que o caraterizava ficou patente para a posteridade. Os acontecimentos a que me refiro remontam ao dia 23 de Fevereiro de 1981, quando o Coronel Tejero irrompeu no Parlamento Espanhol tentando que a Espanha regressasse ao velho regime franquista. Numa tentativa de intimidação os militares dispararam vários tiros para a cúpula do Parlamento. Todos os deputados tentaram proteger-se atrás das bancadas, exceto o general Manuel Gutiérrez Mellado que enfrentou os golpistas e Adolfo Soares que permaneceu sentado impávido e aparentemente sereno.
Homens desta envergadura política e ética constituem no nosso presente uma espécie em vias de extinção acelerada e é justo que preste uma homenagem sentida à sua memória.