Quantas vezes morremos na vida? Tantas e tantas que lhes perdemos a conta! O curioso é que raramente nos apercebemos destas múltiplas mortes, sobretudo, as dos outros. Apenas sentimos a dor que provocam as nossas! Só se torna evidente para todos a última das mortes de cada um. Essa é clara, óbvia, visível e manifesta! Escrevo estas linhas pensando no desaparecimento definitivo de Philip Seymour Hoffman. O “Capote” do cinema. Um ator absolutamente portentoso. Único! Aparentemente um homem muito bem-sucedido. Possuía fama, fortuna e um reconhecimento universal. À primeira vista os ingredientes da felicidade. Morreu aos 46 anos, vítima de uma overdose de heroína. No dia da sua morte chorei. Imaginei a dimensão da sua dor, das suas angústias, dos seus problemas, das suas “mortes”… Definitivamente a vida não é fácil para ninguém. Lembrei-me, então, de um pensamento do Woody Allen: “Tenho a sensação de que a vida está dividida entre o horrível e o infeliz… O horrível será… sei lá, casos terminais, pessoas cegas, aleijadas… e o infeliz seria tudo o resto. E é por isso que, enquanto cá andamos, nos devíamos sentir gratos por sermos infelizes.” Quantas mortes sou capaz de morrer? Quantas mortes somos capazes de morrer? Não sei, mas são muitíssimas… sem dúvida! A vida é tão hostil… tão persistente e sistematicamente hostil que provoca acidentes e mortes de forma continua nas nossas vidas. Até onde somos capazes de resistir à branca e cândida morte que nos dilui no etéreo e infinito nada? Quanta dor medirá o “desesperançómetro” até que seja ultrapassada a ténue linha do “nunca mais”? Quanta incompreensão marcará o “angustiómetro” quando ao alvorecer o rumor mundano da vida se for afastando, afastando… Encontramo-nos todos imersos num processo de afundamento coletivo na dor e no sofrimento. O nosso modelo de desenvolvimento com este sistema económico canibal está a meter agua por todo lado. Afundamo-nos sem remédio. E isto é só o começo. Certamente iremos morrer de uma overdose de austeridade. E isso será o horrível do Woody. Se pelo menos nos deixassem continuar a ser infelizes, era muito bom!
Quantas mortes sou capaz de morrer?
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