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Archive for Março, 2014

:) Teatro (:

Hoje celebra-se o dia mundial do teatro. Este é um grande dia, e eu particularmente estou muito agradecido a esta arte milenar por me ter salvo tantas vezes.  Salvou-me da minha timidez, das minhas inseguranças, das minhas tristezas…

Quando tudo se desmorona dentro de mim, quando nada parece fazer sentido, lá está o teatro: a minha tábua de salvação. De facto, acho que seria muito feliz se vivesse em permanência encima das tabuas dum palco. A vida real é uma tragicomédia povoada de dramas, desilusões, incompreensões e, por vezes, condimentada com pequenos momentos fugidios de humor e felicidade.

A minha pele e o meu corpo têm habitado outras peles e outros corpos. Tenho sentido dentro das minhas entranhas as angustias, as dúvidas, as dores e os pesares de outras vidas, de outras personagens.

O Sr Glas da “Última dança no local do crime” conviveu comigo durante cinco meses e o drama da vida dele passou a ser o meu drama e, quando contava em palco, que tinha perdido a minha mulher judia e o meu filho judeu num campo de concentração, as lágrimas caiam-me copiosamente. Aquelas lágrimas não eram produto dum artifício provocado, fingido. Aquelas lágrimas eram a dor incontida do Sr. Glas que se tinha transformado na minha dor. Eram genuínas lágrimas minhas.

O Harpagão do “Avarento” de Molière também me habitou durante alguns meses. Eu comecei por conhecer esta personagem trágica de forma completamente acidental. Esse papel inicialmente estava destinado a ser interpretado por outro ator. Surgiu um problema imprevisto com esse ator e eu tive de substituí-lo.

Era uma personagem obcecada por dinheiro. Comecei a compreender aquele ser mesquinho através da intuição e pouco a pouco transformei-me no Harpagão, aprendi a caminhar como ele de forma ridícula, a pensar como ele.  As situações vividas por aquele homem horroroso eram de uma comicidade extraordinária em palco. Fui muito feliz vivendo as misérias e as desgraças do Harpagão.

O palco é sempre uma bênção para todos aqueles que o pisam e para todos aqueles que assistem aos dramas e alegrias que tecem e destecem os enredos que são a própria vida.

Viva o teatro que nos salva todos os dias!

Sr. Glas

Sr. Glas

Harpagão

Harpagão

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A morte de Adolfo Suárez trouxe-me de volta recordações e lembranças. Fez-me viajar ao tempo em que eu era um estudante em Barcelona, ingénuo e cheio de sonhos. Vivi aquela época em que este homem conseguiu fazer a proeza incrível de uma transição pacífica da Espanha franquista para a Espanha democrática.

Foi durante o seu governo que nasceu a Constituição Espanhola que ainda se encontra em vigor e que estabeleceu a organização territorial baseada na autonomia dos municípios, províncias e Comunidades Autônomas.

A inteligência, a integridade e a coragem de Adolfo Suárez abriu o futuro ao nosso país vizinho. Um futuro de modernidade e pluralismo democrático.

Lembro-me de um episódio onde a coragem que o caraterizava ficou patente para a posteridade.  Os acontecimentos a que me refiro remontam ao dia 23 de Fevereiro de 1981, quando o Coronel Tejero irrompeu no Parlamento Espanhol tentando que a Espanha regressasse ao velho regime franquista.  Numa tentativa de intimidação os militares dispararam vários tiros para a cúpula do Parlamento. Todos os deputados tentaram proteger-se atrás das bancadas, exceto o general  Manuel Gutiérrez Mellado que enfrentou os golpistas e Adolfo Soares que permaneceu sentado impávido e aparentemente sereno.

Homens desta envergadura política e ética constituem no nosso presente uma espécie em vias de extinção acelerada e é justo que preste uma homenagem sentida à sua memória.

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Quantas vezes morremos na vida? Tantas e tantas que lhes perdemos a conta! O curioso é que raramente nos apercebemos destas múltiplas mortes, sobretudo, as dos outros. Apenas sentimos a dor que provocam as nossas! Só se torna evidente para todos a última das mortes de cada um. Essa é clara, óbvia, visível e manifesta! Escrevo estas linhas pensando no desaparecimento definitivo de Philip Seymour Hoffman. O “Capote” do cinema. Um ator absolutamente portentoso. Único! Aparentemente um homem muito bem-sucedido. Possuía fama, fortuna e um reconhecimento universal. À primeira vista os ingredientes da felicidade. Morreu aos 46 anos, vítima de uma overdose de heroína. No dia da sua morte chorei. Imaginei a dimensão da sua dor, das suas angústias, dos seus problemas, das suas “mortes”… Definitivamente a vida não é fácil para ninguém. Lembrei-me, então, de um pensamento do Woody Allen: Tenho a sensação de que a vida está dividida entre o horrível e o infeliz… O horrível será… sei lá, casos terminais, pessoas cegas, aleijadas… e o infeliz seria tudo o resto. E é por isso que, enquanto cá andamos, nos devíamos sentir gratos por sermos infelizes.”   Quantas mortes sou capaz de morrer? Quantas mortes somos capazes de morrer? Não sei, mas são muitíssimas… sem dúvida! A vida é tão hostil… tão persistente e sistematicamente hostil  que provoca acidentes e mortes de forma continua nas nossas vidas. Até onde somos capazes de resistir à branca e cândida morte que nos dilui no etéreo e infinito nada? Quanta dor medirá o “desesperançómetro” até que seja ultrapassada a ténue linha do “nunca mais”? Quanta incompreensão marcará o “angustiómetro” quando ao alvorecer o rumor mundano da vida se for afastando, afastando… Encontramo-nos todos imersos num processo de afundamento coletivo na dor e no sofrimento. O nosso modelo de desenvolvimento com este sistema económico canibal está a meter agua por todo lado. Afundamo-nos sem remédio. E isto é só o começo. Certamente iremos morrer de uma overdose de austeridade. E isso será o horrível do Woody. Se pelo menos nos deixassem continuar a ser infelizes, era muito bom!

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