Hoje fui a uma livraria e comecei a deambular o olhar pelos títulos dos livros. Naquela sessão todos eram insinuantes, aguçavam o nosso apetite de ganância com estratégias vencedoras que nos lançam para o sonho. Anotei alguns desses títulos. “O que aprendi no caminho para o topo (História de um homem que chegou a número 1)”; “Ganhar em bolsa (Em tempos de crise, aposte na bolsa)”; “O seu primeiro milhão (Como poupar e fazer crescer o seu dinheiro)”; “Nadar com os tubarões sem ser comido vivo”; “Sonho grande (Como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo)”; “O livro secreto das vendas (mapa mensal dos supercomerciais desvendado)”; “O livro da mudança (50 modelos para agir com estratégia)”; “Nada é grátis (Estratégias de lucro de um mundo novo)”; “O Príncipe (Novas formas de exercer o poder e o melhor meio de o conservar)”; “O monge e o executivo (Uma história sobre a essência da liderança)”; “Vencer nas redes sociais (Aprenda as lições dos líderes e reconstrua a sua carreira)”… As palavras mágicas que nos catapultam para a ilusão e o fantástico aparecem nos títulos destes livros: estratégia, liderança, vencer, lucro, ganhar, poder. Suponho que lá dentro, no miolo destas obras se contam os planos e os estratagemas para se alcançar mais dinheiro, mais poder e mais influência. Toda a gente anseia vencer, pretende ser rico, ser bem-sucedido, ser reconhecido. O mundo é uma imensa arena onde se luta sem tréguas para se ser o primeiro. Utilizam-se todos os ardis, derrubam-se obstáculos, deixa-se de viver para atingir esse almejado objetivo. Frequentemente os bem-sucedidos que alcançam esse sonho pagam um preço muito alto. No caminho para o topo apagaram a consciência, ludibriaram princípios e valores e mataram os escrúpulos que ainda ancoravam a sua movediça e fugidia humanidade. À sua volta semearam tristeza, desespero e obviamente produziram uma quantidade imensa de seres fracassados.
Sempre tive um fraquinho por perdedores. É trágico mas descobri nessa condição algo de poético. Enquanto o meu cérebro desfiava estes pensamentos e os meus olhos fixavam aqueles livros de receitas de vencedores instantâneos, lembrei-me daqueles previsíveis anúncios de jornais com aqueles previsíveis slogans: “Quer ganhar dinheiro?” “Quer ser um vencedor?”, que normalmente induzem previsíveis reações de gulosa ganância nos leitores. Recordei-me também da enorme irritação que me produziam esses classificados e da experiência que fiz em dezembro de 2007. Naquela altura coloquei um anúncio no Diário de Aveiro na rubrica negócios: “Quer perder dinheiro? Tenho óptimas opções para perder dinheiro! Contacte-me 933712536.”
Queria conhecer seres com inclinação natural para perdedores. Durante doze dias saiu este anúncio no jornal. Recebi dois telefonemas. A primeira pessoa que me contactou disse: “Ligo por causa do anúncio, é que tenho algum dinheiro para perder! “ “A sério?” – respondi. Nesse momento cortaram a comunicação. A segunda, e última pessoa, que me ligou era uma mulher e apenas me queria dar os parabéns pelo anúncio. Posto isto despediu-se.
Depois desta experiência concluí que ninguém tem verdadeira vocação para perder… . O paradoxal é que todos nós somos, por natureza, perdedores! A vida é sempre a perder!