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Archive for Junho, 2012

Morreu Ray Bradbury

Morreu Ray Bradbury, escritor norte-americano que imaginou um mundo sombrio sem poesia e sem livros. Um sítio triste, desprovido de reflexões e ideias banidas pois os livros, o suporte físico dos pensamentos, foram proibidos e literalmente queimados. Existe, no entanto, neste estranho lugar um grupo de resistentes que preserva a literatura no único local onde não a podem destruir: no cérebro.

Cada um destes heroicos seres teve a titânica tarefa de memorizar um livro, conservando assim as letras e o conteúdo do papel escrito devorado posteriormente pelas chamas.

Esta distopia imaginada por Ray em 1953 parece ser a metáfora perfeita do nosso mundo contemporâneo. Todos os livros de filosofia, ética, poesia, teatro e literatura em geral foram extintos nas chamas da inquisição económica. Toda a produção reflexiva e cultural tem sido triturada, comprimida e esmagada pelo cilindro das finanças. O homem, até agora pertencente à espécie homo sapiens (“homem sábio”, “homem pensador”), regrediu e involuiu para uma subespécie – o homo economicus (“homem económico”).

O homo economicus é um ser caracterizado fundamentalmente por reduzir e transformar todos os aspetos e dimensões humanas em números… económicos. Quantifica, coisifica e assim preda, mata ou subjuga e escraviza todo o homo sapiens que encontra. É um ente unidimensional que utiliza fórmulas matemáticas para circunscrever a vida à prisão da razão numérica. É um ditador supremo com pretensões inequívocas e vontade absoluta de construir um mundo à sua imagem e semelhança arrasando e aniquilando o existente.

Num universo frio de números, de ganâncias e de lucros avassalador, carente e descontextualizado de afetos e sentimentos, onde o homo económicos é rei e senhor é absolutamente indispensável cultivar o pensamento reflexivo filosófico, poético e literário para não permitir que se conclua a materialização desta terrível distopia.

Combater energicamente este vírus económico que está a contagiar e a infetar de forma assustadora todo povoador desta terra torna-se um imperativo ético absoluto.

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