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Archive for Maio, 2012

O que aconteceu em Portugal no primeiro de maio é extremamente grave. Os responsáveis do Pingo Doce decidiram fazer uma campanha de marketing que consistia num desconto de 50%, ou seja, pagava-se metade do preço daquilo que se levava. Esta cadeia comercial de hipermercados justificou uma operação deste género como sendo uma ajuda aos portugueses neste momento de crise. Uma solidariedade muito duvidosa e suspeita! Vejamos: o dia escolhido para esta campanha foi o primeiro de maio: o dia do trabalhador – não parece nada inocente tal opção.

Há dois séculos atrás morreram pessoas que reivindicavam uma redução de horário de trabalho que na época era de treze horas diárias. Esta data que devia ser uma homenagem àqueles que deram a sua vida por um extraordinário avanço civilizacional – a jornada de trabalho de oito horas – é aproveitada por esta cadeia de distribuição para “obrigar” os seus empregados a trabalharem a um ritmo absolutamente avassalador, “obrigar” os consumidores portugueses, com um chamariz aliciante, a passar o feriado dentro das paredes de um centro comercial. Existe subjacente a esta campanha uma violência simbólica enorme. A carga histórica da data é escarnecida e completamente esmagada, entrando-se assim num macabro jogo de subjugação: eu (privilegiado) tenho o poder de vos dar só neste dia 50% de redução, mas vocês (desgraçados) tem que passar o dia em filas intermináveis, sujeitar-se a levar os produtos que restam, lutar por eles mesmo fisicamente se for o caso e gastarem o vosso tempo (feriado), que nada vale, para obterem este desconto. Estas são as minhas condições! Tudo para publicitar o nome deste hipermercado que deve pagar o mínimo possível aos seus empregados esticando o máximo possível os seus horários, que paga a baixo preço e a longo… longuíssimo prazo aos seus fornecedores.

Depois não se admirem que um dia o rio arraste tudo, como Brecht metaforizou: “Diz-se violento o rio que tudo leva pela frente, mas ninguém diz violentas são as margens que o comprimem”.

Se querem mesmo ajudar os portugueses pratiquem uma política sustentada de preços baixos e não humilhem nem subjuguem desta forma tão vil os consumidores!

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