Saímos de Aveiro, o Mané e eu, em direcção a Lisboa por volta das dez horas. A nossa missão era a de entregar na residência oficial do Primeiro-ministro os sapatos, conjuntamente com as mensagens que me tinham sido confiados por colegas, amigos e algumas (poucas) pessoas anónimas que se quiseram associar e colaborar com esta iniciativa.
O nosso carregamento era composto por 37 pares de sapatos e 5 mensagens. Havia 23 pares de sapatos de senhora, quase todos pouco usados e com óptimo aspecto e 14 pares de sapatos de homem, claramente em pior estado de conservação. Das 5 mensagens 4 eram dirigidas ao Engenheiro José Sócrates e apenas uma estava endereçada ao futuro Primeiro-ministro (na altura era previsível que fosse o Dr. Passos Coelho, o que se veio a confirmar no Domingo).
As mensagens todas reprovavam a forma, o estilo e o resultado da governação do Sr. Engenheiro José Pinto. Para o próximo Primeiro-Ministro, o desejo e a advertência de que tenha uma prática governativa mais ética e que trabalhe objectivamente para o bem de todos.
Foi para mim claro e evidente pelos sapatos que me foram entregues que as mulheres até na forma de protestar são mais subtis e delicadas, mas também são muito mais activas que os homens. Note-se que quase dois terços dos sapatos que levei eram de senhora.
Durante a viagem interrogávamo-nos se os sapatos ficariam pelo menos de forma efémera a residir na casa oficial do Primeiro-Ministro, ou se liminarmente seria rejeitada a nossa oferta.
A resposta a esta questão estava a pouco tempo de ser dissipada.
Arribamos à Capital por volta das 13 horas e lá fomos para a Residência oficial do Primeiro-Ministro. Como o carro ficou estacionado um pouco distante, decidimos levar numa primeira investida as mensagens. Assim o fizemos. À entrada o Mané tirou duas fotografias para que houvesse registo da nossa acção.
Entramos e passamos por um detector de metais. O guarda visivelmente nervoso disse-me que as fotografias acabadas de tirar não eram permitidas, porque punham em causa a segurança nacional. Tentei acalmá-lo, dizendo que não pretendíamos fazer tal coisa, pôr em causa a segurança nacional e que se houvesse algum registo fotográfico que não fosse permitido que o podia apagar. Ficou mais calmo e pediu para que lhe mostrasse as fotografias. Disse-lhe que gostaria de fazê-lo mas não sabia como, pois não sabia mexer na minha própria máquina fotográfica, o que era a mais pura verdade. Então ele retorquiu que tinha uma máquina igual. Dei-lhe a máquina para que ele visse as fotografias e as apagasse se assim o achasse conveniente. Viu uma a uma e finalmente encontrou a que procurava, mostrou-ma e pediu para a apagar ao que eu assenti.
Entretanto a recepcionista também me chamou para dizer-me que podia entregar-lhe todas as mensagens dirigidas ao Engenheiro Sócrates, mas não podia receber a mensagem para o próximo Primeiro-Ministro e explicou-me que era contra as normas, para além de não saber se iria permanecer naquele lugar depois das eleições.
Triste, muito triste, porque até o lugar de recepcionista parece ser um lugar de confiança política. Assim a mudança de cadeiras com a previsível alteração do poder é de uma abrangência quase inimaginável. Metade do país muda, é um exagero, mas quase! Assim desta forma não vamos longe!
Perguntei então se podia ir buscar os sapatos, depois de uma pequena explicação sobre o seu sentido e simbolismo. O guarda telefonou ao seu superior hierárquico para consultar sobre o caso. A resposta inicial foi positiva, teriam que passar pelo detector de metais e por uma minuciosa vistoria.
Perante isto, lá fomos nós buscar os sapatos. E quando já nos encontrávamos a uns escassos trinta metros da entrada um agente da PSP abeirou-se de nós e disse-nos que tinha recebido ordens para que os sapatos não fossem recebidos.
Fui então falar com o guarda da entrada e este confirmou que as ordens eram agora para não receber os sapatos. A justificação foi que este governo estava em gestão.
Despedi-me com cordialidade da recepcionista e do guarda desejando-lhes felicidades e recebi deles o mesmo desejo.
Soube então que estes funcionários teriam recebido os sapatos, mas como eles não mandavam, acatei as indicações e regressamos com o calçado que levamos.
A minha última acção de campanha estava cumprida!
Respeitei escrupulosamente o tempo de reflexão e de votação. Só agora conto o que aconteceu.
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