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Archive for Junho, 2011

Para José

Há um ano exactamente, fizeste as malas e partiste. A tristeza que me deixou a tua ausência é indescritível.

Parafraseando Mecano na sua canção dedicada a Dali diria com eles: “Os génios não devem morrer”.

Passei tantas e tantas horas contigo, apresentaste-me tantas personagens inesquecíveis, contaste-me histórias tão bonitas e surpreendentes. Todas elas guardo religiosamente no meu coração.

Fizeste-me chorar quando me contaste a vida dura e sábia dos teus avós maternos. Choro cada vez que me lembro dela, mas é um choro sem mágoa… são lágrimas libertadoras que me tornam verdadeiramente humano.

Confesso que me custou muito entrar na tua escrita. Resisti bastante. E aconteceu tal como tinha escrito o poeta: “primeiro estranha-se depois entranha-se”.

Agora estou tão pobre e triste sem ti, mas sou um privilegiado por te ter conhecido e me teres tocado com as tuas palavras.

Sinto tanto a tua falta! Queria tanto que me contasses outra história.

Tenho tantas saudades do novo livro que já não escreverás!

Obrigado, muito obrigado por teres existido, José!

Até sempre Saramago!

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Saímos de Aveiro, o Mané e eu, em direcção a Lisboa por volta das dez horas. A nossa missão era a de entregar na residência oficial do Primeiro-ministro os sapatos, conjuntamente com as mensagens que me tinham sido confiados por colegas, amigos e algumas (poucas) pessoas anónimas que se quiseram associar e colaborar com esta iniciativa.

O nosso carregamento era composto por 37 pares de sapatos e 5 mensagens. Havia 23 pares de sapatos de senhora, quase todos pouco usados e com óptimo aspecto e 14 pares de sapatos de homem, claramente em pior estado de conservação. Das 5 mensagens 4 eram dirigidas ao Engenheiro José Sócrates e apenas uma estava endereçada ao futuro Primeiro-ministro (na altura era previsível que fosse o Dr. Passos Coelho, o que se veio a confirmar no Domingo).

As mensagens todas reprovavam a forma, o estilo e o resultado da governação do Sr. Engenheiro José Pinto. Para o próximo Primeiro-Ministro, o desejo e a advertência de que tenha uma prática governativa mais ética e que trabalhe objectivamente para o bem de todos.

Foi para mim claro e evidente pelos sapatos que me foram entregues que as mulheres até na forma de protestar são mais subtis e delicadas, mas também são muito mais activas que os homens. Note-se que quase dois terços dos sapatos que levei eram de senhora.

Durante a viagem interrogávamo-nos se os sapatos ficariam pelo menos de forma efémera a residir na casa oficial do Primeiro-Ministro, ou se liminarmente seria rejeitada a nossa oferta.

A resposta a esta questão estava a pouco tempo de ser dissipada.

Arribamos à Capital por volta das 13 horas e lá fomos para a Residência oficial do Primeiro-Ministro. Como o carro ficou estacionado um pouco distante, decidimos levar numa primeira investida as mensagens. Assim o fizemos. À entrada o Mané tirou duas fotografias para que houvesse registo da nossa acção.

Entramos e passamos por um detector de metais. O guarda visivelmente nervoso disse-me que as fotografias acabadas de tirar não eram permitidas, porque punham em causa a segurança nacional. Tentei acalmá-lo, dizendo que não pretendíamos fazer tal coisa, pôr em causa a segurança nacional e que se houvesse algum registo fotográfico que não fosse permitido que o podia apagar. Ficou mais calmo e pediu para que lhe mostrasse as fotografias. Disse-lhe que gostaria de fazê-lo mas não sabia como, pois não sabia mexer na minha própria máquina fotográfica, o que era a mais pura verdade. Então ele retorquiu que tinha uma máquina igual. Dei-lhe a máquina para que ele visse as fotografias e as apagasse se assim o achasse conveniente. Viu uma a uma e finalmente encontrou a que procurava, mostrou-ma e pediu para a apagar ao que eu assenti.

Entretanto a recepcionista também me chamou para dizer-me que podia entregar-lhe todas as mensagens dirigidas ao Engenheiro Sócrates, mas não podia receber a mensagem para o próximo Primeiro-Ministro e explicou-me que era contra as normas, para além de não saber se iria permanecer naquele lugar depois das eleições.

Triste, muito triste, porque até o lugar de recepcionista parece ser um lugar de confiança política. Assim a mudança de cadeiras com a previsível alteração do poder é de uma abrangência quase inimaginável. Metade do país muda, é um exagero, mas quase! Assim desta forma não vamos longe!

Perguntei então se podia ir buscar os sapatos, depois de uma pequena explicação sobre o seu sentido e simbolismo. O guarda telefonou ao seu superior hierárquico para consultar sobre o caso. A resposta inicial foi positiva, teriam que passar pelo detector de metais e por uma minuciosa vistoria.

Perante isto, lá fomos nós buscar os sapatos. E quando já nos encontrávamos a uns escassos trinta metros da entrada um agente da PSP abeirou-se de nós e disse-nos que tinha recebido ordens para que os sapatos não fossem recebidos.

Fui então falar com o guarda da entrada e este confirmou que as ordens eram agora para não receber os sapatos. A justificação foi que este governo estava em gestão.

Despedi-me com cordialidade da recepcionista e do guarda desejando-lhes felicidades e recebi deles o mesmo desejo.

Soube então que estes funcionários teriam recebido os sapatos, mas como eles não mandavam, acatei as indicações e regressamos com o calçado que levamos.

A minha última acção de campanha estava cumprida!

Respeitei escrupulosamente o tempo de reflexão e de votação. Só agora conto o que aconteceu.

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Aveiro, 3 de Junho de 2011

Ex.mo Próximo Sr. Primeiro Ministro

Ousamos enviar-lhe agora estes sapatos para preveni-lo de que não teremos qualquer tipo de dúvida em criticá-lo e denunciá-lo se as suas práticas governativas forem semelhantes às do governo anterior.

Queremos apenas adverti-lo de que estaremos especialmente atentos e vigilantes à sua actuação governativa.
E olhe que somos muitos e cada dia seremos mais.

Com os melhores cumprimentos
António Morais

P.S. Esta carta foi entregue mas não foi recebida pela recepcionista da residência oficial do Primeiro-Ministro , porque não sabia se estaria naquele lugar no próximo governo.

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Aveiro, 3 de Junho de 2011

Sr. José Pinto,

Não peço desculpa por não utilizar o nome pelo qual é mais conhecido, mas nomeá-lo seria ofensivo para a memória do velho sábio grego que foi o primeiro mártir da verdade.

A sua prática governativa esteve sempre nas antípodas da prática do homem que percorria as ruas de Atenas defendendo absolutamente a verdade como um valor supremo.

O seu objectivo foi em permanência o vencer eleições tirando daí lucros pessoais, que foram alimentando a sua natural arrogância e estendendo ao estado o seu particular carácter autocrático.

E o estado foi moldado à sua imagem e semelhança. O poder, este poder fazia tudo o que estivesse ao seu alcance para ocultar a informação que lhe era inconveniente e publicitar tudo o que lhe era favorável, mesmo que para isso tivesse que recorrer a mecanismos eticamente muito reprováveis. E recorreu e recorreu e recorreu vezes sem conta!

Não é necessário falar aqui da TVI, do Jornal Nacional, de Mário Crespo, dos telefonemas do 1º Ministro às redacções dos principais meios de comunicação social, e um longo longuíssimo etc.

A censura pode ser praticada de milhentas formas. E foi muito praticada!

Lembro também os polícias que foram “visitar” o Sindicato de Professores em véspera de uma greve….

Enfim, a enumeração dos actos pouco éticos praticados pelo seu governo nestes dois mandatos seria muito extensa e demorada.

Como é evidente para todos, razões para estar em desacordo com as suas praticas e estilo governativo não faltam.

Por isso muita gente lhe envia estes sapatos.

E eu tive imenso gosto em ser o porta-voz deste descontentamento generalizado de muitos portugueses.

Com os meus cumprimentos
António Morais

P.S. Esta carta foi entregue no dia 3 de Junho (último dia da campanha eleitoral) na residência oficial do Primeiro-Ministro à sua recepcionista.

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No dia 2 de Junho na Praça Melo Freitas recolhi sapatos e mensagens para levar no dia seguinte a Lisboa ao Primeiro-Ministro.

Foram 37 pares de sapatos e 5 mensagens que levei para Lisboa.

Obrigado amigos pela vossa colaboração!

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